Auto-censura

Sussurra o que pensas não poder dizer em voz alta.
Cala as tuas ideias nada brandas.
Olvida os teus pensamentos tidos como brutos,
A curiosidade que em ti ressalta,
O fervor que te compele a avançar.

Cala-te. Não digas nada.
Cede ao temor que te assalta,
À ansiedade que te estreita a garganta.
Cala-te. Eles sabem mais que tu.

Sussurra. Sussurra para que o teu âmago não se esqueça.
Mantém o fogo a arder.
O diálogo mental ainda ninguém silencia.

Tamanho receio de cometer erros,
De não pronunciar as palavras correctas.
A letra não se engana:
“Por tanto te quereres calar, vais acabar mudo.”
(A pior mudez é aquela que sempre conheceste, a censura que inflingiste a ti mesmo.)

Olvida. Olvida o que consideras inapropriado dizer.
Olvida tudo, diz o mundo.
Aceita que as tuas inseguranças sabem mais, aceita que todos sabem mais.

Cala-te.
Aprecia o silêncio e nele, procura a verdade.
Ou encontra-te a ti.
Encontra quem mandaste sussurrar, quem quiseste calar, quem ordenou tudo olvidar.

Cala-te, para depois poderes expressar o que importa, e o que não importa.

O que importa é que reconheças que tens uma voz e que deves usá-la.

A tua auto-censura roubou-te as palavras por demasiado tempo. Pensaste que nunca irias recuperá-las.
E aqui estás. Um dia, não vais sussurrar mais. Um dia, não vais calar mais. Um dia, não vais ser obrigada a olvidar.

O mundo espera-te mudo, porque crê que mudo nada muda. Talvez o mundo tenha razão.

Então mudo. Porque mudo não posso mudar o mundo.

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